A Usina Victor Sence representou o maior empreendimento industrial da história de Conceição de Macabu. São comuns as lembranças saudosas desse período que durou 80 anos, entre 1913 e 1993. No entanto, o jornal "Notícias Populares" publicou uma nota, no dia 24/09/1953, relatando a denúncia de um trabalhador da usina dando conta de que recebia apenas 25 cruzeiros por 12 horas de trabalho, além de péssimas condições de trabalho. Sete meses depois, no dia 22/04/1954, o mesmo períodico publicou uma grande matéria com detalhes das condições de trabalho na Usina Victor Sence, segundo os trabalhadores da época.

Cr$ 21,30, ordenado diário de um trabalhador agrícola


As mulheres ganham 15 cruzeiros por dia — As crianças, conforme a idade, entre 8 e 10 cruzeiros — Exploração e carestia nas fazendas da Usina Vitor Sence — Mulheres em estado de gestação, obrigadas a trabalhar.


CONCEIÇÃO DE MACABU, — 21 (Do correspondente) — Permanecem submetidos à brutal exploração os assalariados agrícolas das fazendas de São Henri, São José, Batatal, Socó, Boa Esperança, São Luís e São João, propriedades da Usina Vitor Sence.

Tais fazendas dedicam-se à plantação de cana de açucar. Na São Henri trabalham cerca de 60 pessoas entre homens, mulheres e crianças. Estes vivem nas piores condições possíveis. O trabalho é excessivo, os ordenados miseráveis, as mercadorias são somente encontradas por preços escorchantes. A alimentação também é péssima.

Além de tudo isso, os trabalhadores são humilhados pelos patrões. São podem chegar atrasados alguns minutos, pois, se tal acontece, são descontados num quarto de dia e no domingo remunerado.

O trabalho na Fazenda São Henri começa às 6 horas da manhã e termina às 17 horas. Os empregados têm apenas 30 minutos para o almoço. Das 9.30 às 10hs.


21 CRUZEIROS POR DIA


A exploração chegou ao auge na São Henri.

O trabalhador que faz o plantio, capina, corte ou transporte de cana ganha por uma jornada de 11 horas de trabalho apenas Cr$ 21,30.

Ninguém melhor para dizer o que é esta miséria do que Manuel Eduardo Neto. Ele é encarregado de turno na Fazenda São Henri. Trabalha para a Usina Vitor Sence há 34 anos e ganha somente Cr$ 21,30 por dia.

Ouvido pelo repórter Manuel declarou:

— Os trabalhadores estão passando fome. Essa fome atinge suas esposas e seus filhos. Além do mais, são insultados pelos patrões.

EXPLORADAS MULHERES E CRIANÇAS


Mulheres e crianças não escapam à exploração. Pelo contrário. Pagam até um tributo maior. As mulheres recebem a migalha de 15 cruzeiros por dia, enquanto as crianças, conforme a idade, ganham entre 8 e 10 cruzeiros.

Eis um exemplo que os discursos demagógicos de Vargas não poderão ocultar: Cirene Eduarda, que será mãe pela terceira vez daqui a 15 dias, obrigada a trabalhar no plantio de cana, descalça, com os pés na terra molhada, ganhando 15 cruzeiros diários, que não dão para sustentar as suas outras duas filhas.

Sobre este caso e o de outras mulheres em idênticas condições, o trabalhador Demostenes Ribeiro declarou-nos:

— As mulheres são obrigadas a deixar as crianças de peito em casa, sem amamentação. Fazem isso com o objetivo de conseguir mais algum dinheiro para auxiliar o marido. Mesmo assim, passam fome.

As crianças de mais de 10 anos trabalham como se fossem adultos. Plantam cana de açúcar, capinam no oito, limpam os pastos dos animais, lidam com bois, enfim, fazem um serviço que é de adulto. Ganham por todo esse trabalho 8 ou 10 cruzeiros. Trabalham invariavelmente 11 horas por dia.

Dirceu Ribeiro é um desses meninos que, em vez de estar na escola, é explorado miseravelmente, ganhando 8 cruzeiros por dia.

Antonio Bernardino é outra criança de 12 anos, que faz tudo quanto é trabalho e recebe apenas 10 cruzeiros diários.

NÃO TEM DIREITO A NADA


Aqui na São Henri, um dos "paraísos" do govêrno do latifundiário Vargas, os trabalhadores agrícolas são impedidos de ter uma pequena plantação de legumes e verduras para a própria alimentação.

As terras são destinadas quase que exclusivamente ao plantio de cana de açúcar e pastagem para o gado, empregado nos trabalhos de plantação e transporte da cana.

Na época do plantio o trabalhador não pode levar nem um gomo de cana para casa. Se tal acontecer, ele será descontado e poderá ser até suspenso.

Somente na época da moagem o trabalhador tem direito a alguma coisa. Esta maravilha: um pé de cana para cada família.

TUDO PELA HORA DA MORTE


Já dissemos que um homem ganha aqui Cr$ 21,30. Vejam agora os preços dos gêneros de primeira necessidade: carne seca, quilo 30 cruzeiros; canjiquinha de milho a 4 cruzeiros; feijão a Cr$ 4,50; banha a Cr$ 40,00; toucinho de porco a 28 cruzeiros.

Muitos trabalhadores têm mulher e seis filhos. Outros estão em situação pior, possuem sete, oito, nove e até dez filhos.

OS "FORNECIMENTOS"


A direção da Usina obriga os trabalhadores a comprar os "fornecimentos" das próprias fazendas ou na casa comercial de Ari Salgado & Cia. Este estabelecimento tem como sócios Ari Salgado, Manoel Pacheco dos Santos (gerente da Usina) e Eliseu Tavares Gomes, fazendeiro e sócio do gerente da Usina em outras fazendas.

Aos sábados, os empregados recebem os seus salários em mercadorias. Nos "fornecimentos" e na casa comercial de Ari Salgado & Companhia, os trabalhadores são obrigados a pagar os preços que forem cobrados, geralmente mais caros do que em outros estabelecimentos de Conceição de Macabu.

E é assim que vivemos nesse município. Trabalhando muito e não ganhando nada. E enfrentando os "tubarões" que são os nossos próprios patrões.


ARQUIVOS

Jornal: Imprensa Popular
Data: 22/04/1954
Página: 2

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